O Lazer no Programa Escola da Família: Análise do Currículo e da Ação dos Educadores Universitários

Cathia Alves

Resumo


O Programa Escola da Família (PEF) é uma ação de políticas públicas educacionais da Secretaria da Educação do Governo Estadual de São Paulo e tem como objetivo ocupar as escolas aos fins de semana com atividades e oficinas de esporte, cultura, saúde e formação para o trabalho, com a mediação de bolsistas universitários e voluntários. As ações do Programa se desenvolvem em escolas localizadas em regiões de alta vulnerabilidade social, procurando difundir uma cultura de paz, incentivar o protagonismo juvenil e fortalecer práticas de convivência e cidadania entre as comunidades intra e extraescolar. Essa pesquisa teve como objetivo investigar as implicações pedagógicas e políticas que envolvem o currículo do Programa Escola da Família, bem como compreender os conhecimentos e discursos disseminados sobre lazer por meio da ação dos educadores universitários e descrever os modos de ser desses sujeitos. Como estratégia de investigação, foram utilizadas a revisão bibliográfica, a análise documental e a imersão no campo, que teve como instrumento para coleta de dados a observação e entrevistas com doze educadores universitários (bolsistas do Programa). Para tratamento dos dados, recorri à análise de discurso foucaultiana. Os resultados do estudo apontaram que o Programa Escola da Família é fruto de parcerias com entidades internacionais e tem como meta ensinar modos de ser a partir do dispositivo da cultura de paz, buscando controlar as pessoas, por meio da ocupação do tempo com atividades de cunho recreativo, social, esportivo, cultural e de formação profissional e para a saúde. Ao compreender o currículo como um texto cultural, identifiquei que o Programa tem dois currículos: um formal, que segue as orientações e diretrizes da Secretaria da Educação e fundamenta sua organização nos eixos de saúde, trabalho, esporte e cultura; e um currículo de resistência, que é espontâneo e descompromissado, pois a comunidade escolhe as práticas e participa das ações que tem desejo e vontade, as pessoas ocupam as escolas para jogar futebol de salão, tênis de mesa, ouvir músicas, fazer as unhas, se encontrar, conversar e passar o tempo. Quanto aos educadores universitários, os discursos demonstram preocupação em manter a bolsa de estudos e oferecer segurança às crianças e adolescentes que frequentam o espaço da escola. Ao atuar no PEF, os educadores aprendem aspectos pessoais, relacionados à autonomia, empatia e respeito às diferenças; e aspectos profissionais, referentes a regras, gestão de tempo, pessoas e recursos. Os tipos de formações e capacitações ofertados para os educadores universitários são escassos e focados na produção de comportamentos em torno das questões do corpo e da saúde. Portanto, o Programa Escola da Família é um dispositivo pedagógico que fabrica modos de ser ao ofertar acesso à cultura, esportes, lazer, cursos profissionalizantes e formações sobre saúde, no sentido de controlar e organizar as comunidades, ocupando seu tempo com ações não violentas, de convívio e práticas de cidadania, mascarando o direito ao lazer. Assim, o PEF é uma política pública disciplinadora de condutas, que opera com micropoderes que se movimentam e, por meio do lazer, produz práticas educativas, atribuindo modos de ser aos educadores universitários (disciplina, seriedade, papel educativo), que são os mediadores das ações, e às comunidades que participam do Programa.

Palavras-chave


Lazer; Currículo; Programa Escola da Família.

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